Por que nós, mulheres e LGBTs, devemos nos preocupar mais com o racismo?

A população negra precisa de mais atenção de todas nós – em especial dentro do feminismo e da causa LGBT. Não podemos mais deixar de tocar nesse assunto!

Lidar com o machismo e a misoginia já se tornou uma rotina para mulheres, assim como a opressão e homolesbobitransfobia já não são situações estranhas às LGBTs. São coisas às quais infelizmente nos habituamos, mas que temos encontrado cada vez mais força para enfrentar. Nós já aprendemos (e entendemos) que não faz mais sentido aceitar algo injusto que nos é imposto por padrões sociais que não são inclusivos.

Mas partindo daí, fica a pergunta: onde fica a questão racial nessa discussão? Sabendo que a luta não se constrói sozinha, por que nossa preocupação não inclui nossas manas negras? Por que não damos à causa negra um nível maior de atenção? Precisamos reconhecer a dura realidade do racismo e tocar nessa ferida.

A causa negra diante do privilégio branco

Vamos começar com uma provocação. O racismo é crime previsto em lei no Brasil. Mas você sabe a qual órgão recorrer caso presencie um crime racial? Independente da sua cor de pele, você sabe agir diante dessa situação? Você ao menos já parou para procurar saber sobre isso?

Pode até ser que você conheça essas respostas, mas temos que admitir: a maior parte das pessoas não sabe ou tem dúvidas quanto a esse assunto (se você for uma delas, clique aqui). E não precisar saber disso é apenas um dos inúmeros privilégios que muitos de nós temos e, por vezes, não nos damos conta.

Estes e inúmeros outros privilégios existem, e nós precisamos reconhecê-los. E a luta das nossas manas e manos pretos não se trata de reclamar, em função deles, um patamar de superioridade ou de benefício. O que é preciso é se esforçar para desenvolver uma empatia maior e promover, de fato, a igualdade entre raças.

Mulheres e LGBTs: a raça como um dificultador

O privilégio branco não surgiu do nada. Ele vem de um largo contexto histórico com a comunidade negra sendo ignorada e marginalizada. Foram mais de 300 anos de escravidão, em que negros não eram tratados como pessoas. E mesmo após a abolição, os negros nunca estiveram a par de igualdade na sociedade. Esse patamar já coloca as pretas em caráter de desvantagem.

E assim como há um conservadorismo enorme atingindo as causas feminista e LGBT, a comunidade negra também é alvo desse sistema. Lidar com todos os percalços cotidianos de ser uma mulher ou uma LGBT sendo uma pessoa negra torna essa luta ainda mais difícil. Todas nós (independente de quem sejamos) temos a responsabilidade de desconstruir e reparar esse cenário de alguma forma.

Mulheres e LGBTs negras sofrem muito mais violência, tem muito mais direitos tolhidos e sua voz é sempre minimizada. Por muito tempo, o corpo negro ficou excluído do padrão de beleza, embora seja fetichizado ou sexualizado o tempo todo, por meio de comentários sobre os seios, a bunda ou o tamanho do pau. A juventude negra morre cada vez mais e tem acesso a muito menos oportunidades.

Ninguém quer pensar numa olimpíada de perseguição, onde você soma pontos por suas características (até porque isso reforça a ideia de vitimismo, que também precisa ser desconstruída). Fato é que precisamos pensar mais e discutir melhor essa pauta, pois essas questões afetam pessoas ao nosso redor, e somadas, contribuem uma como agravante da outra.

E como nós podemos resolver esse problema?

Seria incrível ter essa resposta, mas infelizmente não existe um caminho pronto. A estrada ainda é longa, mas as dificuldades não devem nos impedir de lutar por isso. Por isso, vamos dividir um pouco daquilo que a gente tem aprendido, e que pode ajudar a garantir um pé de igualdade para nossas manas negras:

No dia-a-dia

  • Converse com pessoas negras a respeito de dúvidas que você tenha a respeito de racismo, e tenha a mente aberta para aprender e ouvir outros pontos de vista;
  • Se eduque a respeito de atitudes no nosso cotidiano e que sustentam pensamentos racistas, tentando se policiar para evitá-las e conscientizar outras pessoas para que também o façam;
  • Entenda sobre os seus privilégios, e não os utilize para menosprezar a dor do outro; também não vale empregar casos específicos para posicionar a luta negra como vitimismo ou mimimi;
  • Busque entender a origem das demandas de quem pede por esses direitos, afinal, as atitudes e comportamentos racistas não foram criadas pelo povo negro, mas são elas e eles quem se desgastam com elas.

Diante de um episódio de racismo:

  • Trate a questão com a mesma seriedade que você trata atitudes machistas, LGBTfóbicas ou de qualquer tipo de violência; no próprio Carnaval, peça para pararem o cortejo/ensaio ao notar algo assim acontecendo;
  • Não romantize a situação – a pior postura é querer justificar o racismo como falta de evolução espiritual ou relevar uma atitude errada (e criminosa) para “não dar pano pra manga”;
  • Tome alguma atitude útil ao presenciar algo errado: chame alguma autoridade, registre o episódio com o celular… e se não souber o que fazer, estar por perto para testemunhar os fatos é uma ajuda muito bem-vinda.

O racismo ainda é um mal enraizado, e o conhecimento sobre o tema ainda é o melhor caminho para tentar solucioná-lo. Essa batalha pede e merece nossa atenção. Não só pelas nossas manas pretas, mas pela justiça de um povo que merece ser tratado de igual para igual.

Se quiser acrescentar algo a essa discussão, seu comentário é super bem-vindo. E não se esqueça de compartilhar nosso post, pois esse papo é super sério e muita gente pode se beneficiar disso.

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