A importância da Praia da Estação para o Carnaval de BH

Você sabia que a Praia da Estação surgiu a partir de um protesto político, e que ela foi um movimento crucial na retomada do Carnaval de BH?


O carnaval de rua de Belo Horizonte existiu desde a fundação da cidade, mas foi perdendo importância com o passar dos anos. Era de conhecimento geral que a cidade ficava às moscas, e os belo-horizontinos já tinham, por costume, outros destinos carnavalescos. O que nem todos sabem é que a Praia da Estação foi um dos principais elementos que mudaram esse cenário de uns anos pra cá.

A cidade é um espaço de troca, de construção, de vivência urbana. A ocupação dos espaços públicos é muito importante para que ela se mantenha sempre viva e fluida. As formas de apropriação da cidade ajudam na conformação de uma identidade da comunidade que ali vive, que se sente pertencente àquele espaço. E na Praça da Estação esse sentimento veio de canga, biquíni e caixa de isopor.

Como surgiu a Praia da Estação?

Em dezembro de 2009, o então prefeito Márcio Lacerda assinou um decreto que “proíbe eventos de qualquer natureza na Praça da Estação”. A medida não foi nada bem recebida, e mensagens foram compartilhadas com uma convocação para que as pessoas comparecessem a um encontro na Praça, em janeiro de 2010, como forma de protesto. Desse encontro, nasceu a Praia da Estação como um movimento de reocupação dos espaços públicos de BH.

A Praia da Estação se torna, assim, uma intervenção política performática, onde os moradores vivenciam a cidade se vestindo com maiôs e shorts, tomando banho nas fontes e transformando a Praça da Estação numa grande praia. A experimentação urbana do movimento começa questionando um instrumento normativo que impede o cidadão de viver a experiência da cidade, mas se expande e toma proporções que se ligam diretamente ao nosso carnaval como é hoje!

A retomada do Carnaval de Rua de BH

Desde o início dos anos 2000, BH já passava por um renascimento do carnaval de rua, com o surgimento de alguns blocos como o Santo Bando (em 2004), o Trema na Linguiça (em 2007), o Tico Tico Serra Copo e o Bloco do Peixoto (ambos em 2009). Foi a partir do ano de 2010, porém, que a primeira grande expansão aconteceu no carnaval da cidade, e a Praia da Estação foi fundamental para o fortalecimento desses novos movimentos.

Blocos que se declararam como movimentos sociais e políticos surgiram e se firmaram no espaço urbano. Isso trouxe uma real retomada da festa carnavalesca, como forma de protesto e apropriação dos espaços públicos, reivindicando o lugar que é de direito de todo cidadão: as ruas.

O Carnaval de Rua de BH ressurge, então, pedindo por direito à cidade e pelo uso e apropriação de seus espaços públicos, de forma igualitária, diversa e popular. Os blocos de rua buscam fazer da festa carnavalesca um modelo de transformação do espaço e de vivência da cidade. A festa se soma a pautas de conflitos da nossa sociedade, como causas feministas, raciais e da comunidade LGBT, lutas de classes, territoriais, políticas, mobilidade urbana, habitação.

A força política do Carnaval de BH

Hoje, o carnaval de BH é um dos maiores do Brasil, e vários blocos seguem trabalhando com os ideais trazidos desde a Praia da Estação. Os Filhos de Tcha Tcha e o Tico Tico Serra Copo apoiam os movimentos populares por moradia. O Pula Catraca e o Bloco da Bicicletinha debatem questões relacionadas ao transporte público e mobilidade urbana. O Angola Janga levanta a voz pelo movimento negro, e o Pena de Pavão de Krishna batalha pela ocupação de áreas marginalizadas e bairros periféricos.

Nós, do Garotas Solteiras, defendemos as causas feminista e LGBT — ideais que também são compartilhados pelo Bruta Flor e Alô Abacaxi, respectivamente. E inclusive, já fizemos uma comemoração de aniversário do bloco, chamando as mina, as gay, as bi, as trans e as sapatão para ocupar a praça, com a Praia Bem Garota — uma homenagem bem closeira a esse movimento tão importante em nossa cidade.

O sentimento de retomada das ruas, que veio com a Praia da Estação e se fortaleceu com o carnaval de rua na última década, é de reafirmar o caráter espontâneo da festa como forma de resistência popular diante desse modelo de espaço controlado e gerido apenas pelo poder público. Nosso carnaval é de lacre, é de folia, é de bapho, de purpurina e de fantasia, mas também é de resistência, de debate, de luta!

Que tal agora aquela ajudinha marota pra compartilhar e contar pras migues um pouquinho dessa história de luta do nosso carnaval? Aproveita e segue o Garotas nas redes que estamos lá, bem plenas, cheinhas de conteúdo pra você!

Comente pelo Facebook: