O que é ser trans: uma dificuldade muito além da questão do gênero

A demanda de homens e mulheres trans está além de expressar o gênero com o qual se identificam. Sua realidade envolve necessidades muito maiores do que pensamos.

Dentro e fora da comunidade LGBT, nossas migs trans (termo guarda-chuva que engloba travestis, transexuais e transgêneros) lidam com o preconceito perante à sociedade. Mas a dificuldade dessas pessoas está muito além da discriminação. Ela se permeia por direitos básicos, que ainda são inacessíveis para muitas.

Nosso post vai apontar alguns direitos aos quais a maior parte da sociedade tem acesso e que, por isso, talvez nos pareçam irrelevantes. Entretanto, tudo isso ainda é visto como uma série de privilégios muito distantes para as manas e manos trans. Esperamos ajudar a conscientizar e mostrar que temos que levantar a nossa voz, diante dessa realidade tão dura.

Saúde básica

Recentemente, a OMS (Organização Mundial de Saude) retirou a transexualidade da lista de doenças mentais. Mas a questão da saúde de pessoas trans ainda é crítica. Esse público é parte de um dos grupos mais vulneráveis ao suicídio. Estima-se também que o Brasil tenha mais de 750 mil pessoas trans, e apenas 11 ambulatórios com atendimento especializado.

Apesar dos tratamentos de adequação estarem disponíveis pelo SUS, ainda há uma dificuldade enorme em conseguir acessar o tratamento, pois faltam serviços, profissionais e insumos. E mesmo na rede privada de saúde, há pouquíssimos profissionais preparados para atender esse público. Isso leva pessoas a procurarem tratamentos clandestinos e colocarem suas vidas em risco.

Acesso à educação

Pesquisas apontam um índice de evasão escolar por pessoas trans superior a 80%. E não é para menos: estudantes LGBTs num geral são vítima de bullying e discriminação nas escolas, e o preconceito por não-adequação ao gênero só agrava isso. Hoje não existe um espaço no ambiente escolar que garanta a proteção e o acolhimento a pessoas trans. Em função disso, há uma constante de desrespeito – que torna o ambiente escolar e universitário pouco convidativo (e muitas vezes hostil) para as pessoas trans.

Trabalho formal

Em função do preconceito e também do pouco acesso à educação, o mercado de trabalho formal também é pouco receptivo para com as pessoas trans. Segundo estimativa da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 90% das mulheres trans acabam recorrendo à prostituição de rua como única opção de sobrevivência. Hoje não há legislação específica que favoreça a entrada de pessoas trans no mercado de trabalho. As poucas vagas formais surgem em iniciativas tímidas, de empresas que se preocupam com a causa.

Relacionamentos afetivos

Manter uma relação estável é outra dificuldade. O Brasil é, ao mesmo tempo, o país que mais mata mulheres trans, e o que mais consome pornografia do gênero. Não é comum que o momento de se assumir como trans em um relacionamento resulte em violência. Corpos trans são constantemente fetichizados, e isso faz com que sejam colocados em posição de objeto. A grande maioria das pessoas se esquece que, por trás daqueles corpos, há pessoas com sentimentos, desejos e sonhos. E os poucos que tem essa consciência nem sempre aguentam o tranco e a pressão social para levar o relacionamento a diante.

Convívio familiar

Entre pessoas LGBT em geral, não é incomum ouvir relatos de experiências de rejeição ou incompreensão entre as pessoas da família. Mas a falta de informação e o preconceito fazem do ambiente familiar um verdadeiro antônimo de acolhida e segurança para as pessoas trans. Uma em cada seis agressões a transexuais registradas no Brasil acontece em ambiente familiar. A casa ainda é o lugar onde suas identidades são menos respeitadas. Estes também são tristes retratos que se somam à toda violência e humilhação cotidiana de homens e mulheres trans.

A responsabilidade de melhorar a situação de todos é nossa também. Independente da identidade de gênero de cada um, todos podemos aprender um pouco mais e desenvolver empatia por quem passa por esses percalços. Essa pode ser uma ótima forma de começar a mudar um pouco essa realidade.

Um primeiro passo para ajudar mais pessoas a desenvolverem essa empatia pode ser compartilhar esse texto com mais pessoas. E se quiser acrescentar algo à nossa discussão, fique à vontade para deixar um comentário!

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